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5 Tendências Aero que moldarão a próxima era do ciclismo de estrada

Ao olhar para o horizonte com uma bola de cristal (aerodinamicamente otimizada), apresento algumas previsões fundamentadas em evidências circunstanciais consistentes.

5 Tendências Aero que moldarão a próxima era do ciclismo de estrada

O ciclismo de estrada profissional é um ambiente conservador, repleto de tradições e história. Grande parte do conhecimento acumulado no esporte está nas mãos de ex-corredores, soigneurs e mecânicos de carreira, que operam sob o mantra do “sempre fizemos assim”. 

Outras modalidades do ciclismo adotaram, mais rapidamente, inovações como otimização aerodinâmica, ajustes progressivos de bicicleta e pneus mais largos – mudanças que demoraram a chegar ao pelotão profissional. Será que 2025 marcará o início do efeito bola de neve dessas inovações?

Por exemplo, depois de décadas de pouca alteração, os ajustes profissionais das bicicletas começaram, nas últimas temporadas, a se transformar. Selins estão se deslocando para frente, os pedivelas estão mais curtas e as posições do guidão, mais estreitas e alongadas. 

Em resumo, as posturas adotadas no ciclismo de estrada estão se aproximando das posições usadas em contra-relógio – e, surpresa: os ciclistas se tornam mais rápidos nessas posições. Embora essas mudanças possam parecer revolucionárias, elas já estão em prática no ciclismo de pista há alguns ciclos olímpicos.

Outra modalidade que tem recompensado os primeiros a adotar inovações é o ciclismo profissional de gravel. Esses atletas já incorporaram pneus mais largos e aerodinâmica otimizada pelo sistema, entre outras novidades. 

Ainda que as regras da UCI para ciclismo de pista e gravel permitam mais experimentação do que as do ciclismo de estrada, é possível extrapolar as tendências dessas disciplinas para prever futuras inovações na estrada. Algumas já estão ocorrendo, enquanto outras são meramente previsões – mas todas têm grande chance de se tornarem comuns.

1. Adoção de Texturas

5 Tendências Aero

Um dos avanços aerodinâmicos mais significativos dos últimos anos ocorreu por meio de tratamentos de superfície. Seja em skinsuits com "trips" integrados que perturbam a camada limite ou em camadas base texturizadas que geram efeitos semelhantes, a ideia é reduzir a resistência. Meias aero e capas para sapatos já existem há algum tempo, originalmente restritas às provas contrarrelógio, mas hoje fazem parte do vestuário em qualquer corrida.

Em breve, veremos uma expansão desse conceito: shorts, luvas, mangas, laterais de pneus, quadros de bicicleta (onde permitido) e outros componentes poderão receber texturas especiais. Combinações de aro e pneu, como a colaboração entre Continental e Swiss Side, já deram os primeiros passos nesse sentido nos últimos 12 meses, e as expectativas são de mais avanços. 

Um exemplo é a bicicleta Bolide F TT da Pinarello, que apresenta tubo de selim e canote totalmente texturizados – semelhante ao desenvolvido para a bicicleta do recorde de hora de Filippo Ganna. É apenas uma questão de tempo para surgirem fitas especiais para guidão com otimização aerodinâmica.

2. Crescimento do Uso de Capacetes Aerodinâmicos/Contrarrelógio no Ciclismo de Estrada

5 Tendências Aero

A equipe Team Visma–Lease-a-Bike já deixou pistas disso no Omloop Het Nieuwsblad, e a tendência é que capacetes aerodinâmicos ou de contra-relógio se tornem a norma nas provas em massa – exceto talvez em dias de calor extremo. 

Alexander Kristoff, da Uno-X, já compete com capacete de TT desde 2023; embora não seja uma novidade, a prática está finalmente se disseminando. Vale lembrar que no ciclismo de pista, onde os capacetes de contra-relógio já são tradicionais, essa tecnologia é antiga para alguns.

Por ser algo muito específico para cada ciclista, o que funciona para um nem sempre funciona para outro. As equipes parecem investir em testes para escolher o capacete mais rápido dentre as opções de seus patrocinadores, especialmente em grandes competições. 

Atualmente, a maioria desses capacetes carece de boa ventilação, o que os torna inadequados para dias quentes – mas é provável que modelos com melhor ventilação e sistemas de resfriamento surjam ainda neste verão.

3. Jerseys e Shorts Separados Serão Reservados aos Treinos

5 Tendências Aero

Os skinsuits já são comuns em etapas de sprint ou em dias decisivos de classificação geral em Grandes Voltas. Em breve, eles passarão a ser o traje padrão em todas as corridas para todos os ciclistas, pois cada ponto percentual ganho na redução de atrito torna-se essencial para se manter competitivo. 

Além disso, os designs dos skinsuits serão cada vez mais otimizados para condições específicas – como modelos para subidas que permitem maior ventilação e, ainda assim, mantêm a velocidade (e o calor necessário) nas descidas, ou designs adaptados para dias frios, com ventos cruzados e ângulos de ataque elevados, típicos das clássicas da primavera.

Esses trajes também poderão ser personalizados para cada ciclista, e as equipes que investirem nessa personalização terão uma vantagem tática, embora o custo elevado de testar e produzir skinsuits individuais seja o principal obstáculo para sua adoção plena. Consequentemente, as tradicionais camisas e bermudas usadas em competições ficarão restritas aos dias de treino.

4. Personalização do Cockpit

5 Tendências Aero

Os ciclistas profissionais não são como nós; suas necessidades são específicas e os equipamentos que utilizam devem refletir isso. Os cockpits integrados já são padrão nas bicicletas de estrada (e cada vez mais em gravel e mountain bike cross-country), mas suas dimensões costumam ser limitantes. 

Precisa de guidões de 36 mm e uma mesa de 125 mm? Prepare-se para os cockpits impressos em 3D, feitos sob medida para cada ciclista. Essa tecnologia existe há anos – chegou a se dizer que Chris Froome usou guidões de titânio com aparência de carbono –, mas ainda não foi combinada com as mais recentes inovações aerodinâmicas.

Embora já haja ciclistas de pista olímpicos utilizando guidões de titânio personalizados impressos em 3D, no ciclismo de estrada isso ainda é raro, em parte devido às rígidas regulações da UCI sobre dimensões dos guidões. 

Contudo, como vimos com as configurações de TT dos últimos anos, um guidão bem projetado pode fazer grande diferença no desempenho de uma prova. É esperado que os cockpits das bicicletas de estrada continuem a se personalizar, especialmente para os líderes de equipe.

5. O Impacto Crescente do Gravel

5 Tendências Aero

O ciclismo de estrada tem se inspirado nas inovações vindas do gravel, onde a menor regulamentação possibilita que os atletas experimentem e aprimorem a configuração de suas bicicletas. Mas os ciclistas de gravel também estão atentos às práticas dos profissionais da estrada, adotando estratégias como alta ingestão de carboidratos e métodos avançados de resfriamento, além das atualizações aerodinâmicas.

À medida que o gravel cresce – com mais investimentos e equipes maiores –, é provável que essas inovações se intensifiquem ainda mais. Poderemos ver corridas em equipe no estilo contra-relógio, carenagens integradas, combinações ousadas de pneus e aros, entre outras novidades. 

Atualmente, os ciclistas de gravel tentam, basicamente, adaptar configurações de bicicletas de contra-relógio ou perseguição de pista para bicicletas capazes de receber pneus 2.4 XC. No último Unbound, Lachlan Morton venceu a prova utilizando um capacete aero e um skinsuit com reservatório de hidratação integrado. O que esperar para este ano? O céu é o limite.

Conclusão

5 Tendências Aero - Conclusão

Parte da resistência às mudanças no ciclismo profissional se deve à estética. Mesmo escolhas objetivamente mais rápidas foram descartadas por parecerem “ridículas” ou por contrariar a visão nostálgica de alguns, que preferem tubos superiores alinhados e capacetes com rede de cabelo. 

Muitas vezes, as críticas às novas inovações aerodinâmicas vêm do fato de não se encaixarem no imaginário tradicional do que um ciclista profissional “deveria” vestir ou aparentar. Equipes perspicazes estão eliminando esses preconceitos, ganhando assim uma vantagem competitiva.

Ainda que os ganhos aerodinâmicos sejam cada vez mais compreendidos e aceitos, o desempenho puramente aero não supera a usabilidade. 

Dois exemplos disso são: A) a ampla rejeição de rodas de seção ultra profunda, que raramente são usadas hoje em dia devido à melhor compreensão dos ângulos de ataque que os ciclistas enfrentam; e B) as garrafas aerodinâmicas, que se saem bem em túneis de vento, mas são logisticamente complicadas de serem implementadas durante uma prova, com múltiplos carros, zonas de alimentação e repasses. Assim, embora a otimização aerodinâmica seja importante, a funcionalidade continua sendo o fator decisivo.

Quem sabe o que se passa na mente dos aficionados por túneis de vento que sussurram seus segredos aos chefes do WorldTour? Será que veremos essas pequenas melhorias de velocidade se consolidando até se tornarem parte do cenário, ou elas serão substituídas por uma mudança revolucionária que transformará o esporte de uma maneira totalmente nova? A bola de cristal, afinal, é imprevisível.